Domingo, 30 de Outubro de 2011
Natália Correia: Turva hora onde...

Turva hora onde

Principia a noite

E o dia se esconde.

 

Hora de abandonos

Em que a gente esquece

Aquilo que somos

E o tempo adormece.

 

Nevoenta hora,

Hora de ninguém

Em que a gente chora

Não sabe por quem.

 

E tudo se esconde

Nessa hora onde

Por estranha magia

Brilha o sol da noite

E o luar de dia.

 

 

Natália Correia

in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa 1999



publicado por António Ventura emgestaocorrente às 20:12
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Sábado, 12 de Fevereiro de 2011
6, de Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes, de Alexandre O'Neill

Sentenças delirantes dum poeta

para si próprio

em tempo de cabeças pensantes

 

 

6

 

 

Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que

te puseram em cima da cabeça?

Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.

 

É provável que te sintas logo muito melhor.

 

Sai, então, de baixo da pedra.

 

 

 

 

Alexandre O'Neill,

in "Poesias Completas 1951/1986"




publicado por António Ventura emgestaocorrente às 17:22
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Discurso, de Alexandre O'Neill

DISCURSO

 

 

no dize-tu-direi-eu
havia um que dizia
quer dizer é como quem diz
que o mesmo é não dizer nada
tenho dito

 

 

 

Alexandre O'Neill,
in "Poesias Completas 1951/1986"




publicado por António Ventura emgestaocorrente às 17:17
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011
A exaltação da pele, de Natália Correia

 

A exaltação da pele

 

 

 

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.

Sem lírios e sem lagos

e sem o gesto vago

desprendido da mão que um sonho agita.

Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu

suspensa de mundos cintilantes pelas veias

metade fêmea metade mar como as sereias

 

 

 

 

 

Natália Correia,

in "Poesia Completa", Publ. Dom Quixote, 1999




publicado por António Ventura emgestaocorrente às 09:52
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Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010
Inverno, de Sophia de Mello Breyner Andresen

  

Este Inverno é longo gélido

E confuso

Na varanda só o vento passa

E o vento olha-nos de esguelha quando passa

 

Nenhum poema aflora

Entre as linhas finas e aéreas

Da página em branco

  

  

  

Inverno de 1999

In "Obra Poética", Ed Caminho, Lisboa, Outubro de 2010

 




publicado por António Ventura emgestaocorrente às 13:40
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
Nas róseas ondas quando o amanhecer, de Natália Correia

 

Nas róseas ondas quando o amanhecer

Carmina a areia, entre rochas altas

Banham-se as belas. Vem amigo ver,

Flutuar meu cabelo à flor das águas.

      Ó vem, sedento! Amigo, vem beber

      A água que do cabelo me escorrer.

 

No mar que à areia nácar vem render,

Entre altas rochas, raiando a madrugada,

Banham-se as belas. Vem amigo ver

Meus ombros flutuar à flor da vaga.

      Ó vem, sedento! Amigo, vem beber

      A água que dos ombros me escorrer.

 

Na  vaga que de brilho a areia asperge

Entre altas rochas, quando a manhã desponta

Banham-se as belas. Vem amigo ver

Meu seio flutuar à flor da onda.

      Ó vem, sedento! Amigo, vem beber

      A água que do seio me escorrer.

 

 

 

 

in "Poesia Completa"

PublicaçõesD. Quixote, Lisboa, 1999




publicado por António Ventura emgestaocorrente às 10:09
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
O Inominado, de Alexandre O'Neill

 

se eu não fizer

assim (como hei-de

dizer?) amor

sim amor contigo

muitas (meudeus!) vezes

com preguicinhas boas

tolices ao ouvido

revoadas de beijos

repentes dentes

olhares pestanejados com carinho

                               oh

nem terei nome

serei "o coiso" "esse aí" o "como

é que ele se chama?"

o que dorme singelo

o que ninguém (ai ai) ama.

 

 

 

in "Poesias Completas 1951/1986"

Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990




publicado por António Ventura emgestaocorrente às 23:30
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Domingo, 5 de Dezembro de 2010
Ana Brites, Balada tão ao gosto popular português, de Alexandre O'Neill

 

Ana Brites, a coitada,

está no seu canto, enfartada,

a brancura do cabelo

na brancura da almofada,

a roupa da cama, pois,

bem dobrada e alinhada.

 

Ana Brites, camponesa

do fundo de Portugal,

com um tubo no nariz,

não pensa nem bem nem mal,

vê imagens, as da vida,

que até agora viveu,

vê a Castanha, a vaquinha,

o que no eido ocorreu,

vê-se em pequena, sozinha,

por esses montes, além,

caminho das letras gordas

também das quatro operações,

vê-se já em rapariga,

a alfinetar corações.

 

Vê o primeiro que pôs

rumores no seu coração,

um moço de grande lábia

sempre alegre e espertalhão.

Vê aquele que a levou,

por uma vez ao altar,

e vai, no seu corpo entrou,

como na casa o ladrão,

para a deixar com um filho

que é a sua devoção.

 

Ana Brites, a coitada,

sente, às vezes, a dor fina.

Apetece-lhe gemer,

mas é muito envergonhada,

além de não ser menina.

 

É então que uma senhora,

branca, de sorriso doce,

aparece em boa hora,

põe-lhe a mão no peito murcho

e vai-se embora só quando

a dor fica aliviada.

 

Ela não sabe quem é,

mas por seu bem ou seu mal,

habituou-se a chamar-lhe:

Senhora do Hospital.

 

 

 

in "Poesias Completas 1951/1986",

Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990


 

 

 



publicado por António Ventura emgestaocorrente às 17:05
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Domingo, 25 de Julho de 2010
Cortina, de Maria Teresa Horta

Cortina





Peço-te que feches
a cortina
e à sua sombra já estremeço nua


Vens-me cobrir o frio
com o teu calor
e à nossa roda já tudo flutua





Maria Teresa Horta, in
"Só de amor", Quetzal Ed., Lisboa, 1999

 



publicado por António Ventura emgestaocorrente às 17:53
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Quarta-feira, 3 de Março de 2010
Imprevisto - Maria Teresa Horta

Que surpresa
a dos dedos
quando percorrem o corpo

ou espalham os cabelos
pelas costas
despidas

Em breve será o ventre
e em seguida

as pernas lentas
mansamente erguidas



In "Maria Teresa Horta - Poesia Reunida", Dom Quixote, Lisboa, 2009
 

 



publicado por António Ventura emgestaocorrente às 22:37
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